Entrevista com a Dra. Rita Levi Montalcini

Entrevistador (E) - Como vai celebrar seus 100 anos?

Dra. Rita Levi (RL) - Ah, não sei se viverei até lá, e, além disso, não gosto de celebrações. No que eu estou interessada e gosto é do que faço cada dia.!

E - E  o que você faz?

RL - Trabalho para dar uma bolsa de estudos para as meninas africanas para que estudem e prosperem ... elas e seus paises.  E continuo investigando, continuo pensando.

E - Não  vai se aposentar?

RL - Jamais! Aposentar-se é destruir cérebros!  Muita gente se aposenta e se abandona... E isso mata seu cérebro. E adoece.

E - E como está seu cérebro?

RL - Igual quando tinha 20 anos!  Não noto diferença em ilusões nem  em capacidade.  Amanhã vôo para um congresso médico.

E - Mas  terá algum limite genético ?

RL - Não.  Meu cérebro vai ter um século.... Mas não conhece a senilidade... O corpo se enruga, não posso evitar, mas não o cérebro!

E - Como você faz isso?

RL - Possuímos grande plasticidade neural:  ainda quando morrem neurônios, os que restam se reorganizam para manter as mesmas funções, mas para isso e conveniente estimulá-los!

E - Ajude-me a fazê-lo.

RL - Mantenha seu cérebro com ilusões, ativo, faz ele trabalhar e  ele nunca se degenera.

E - E viverei mais anos?

RL - Viverá melhor os anos que vive, é isso o interessante.  A chave é manter curiosidades, empenho, ter paixões....

E - A sua foi a investigação cientifica...

RL- Sim e segue sendo.

E - Descobriu como crescem e se renovam as células do sistema nervoso...

RL - Sim, em 1942:  dei o nome de Nerve Growth Factor (NGF, fator do crescimento nervoso), e durante quase meio século houve dúvidas, até que foi reconhecida sua validade e  em 1986, me deram o premio por isso.

E - Como foi que uma garota italiana dos anos vinte converteu-se em neurocientista?

RL - Desde menina tive o empenho de estudar.  Meu pai queria me casar bem, que fosse uma boa esposa, boa mãe... E eu não quis.  Fui firme e confessei que queria estudar.

E - Seu pai ficou magoado?

RL - Sim, mas eu não tive uma infância feliz: sentia-me feia, tonta e pouca coisa...  Meus irmãos maiores eram muito brilhantes e eu me sentia tão inferior...

E - Vejo que isso foi um estimulo...

RL - Meu estimulo foi também o exemplo do médico Albert Schweitzer, que estava em África para ajudar com a lepra.  Desejava ajudar aos que sofrem, isso e meu grande sonho.

E - E você tem feito..., com sua ciência.

RL - E, hoje, ajudando as meninas da África para que estudem.  Lutamos contra a enfermidade,  a opressão da mulher nos paises islâmicos por exemplo, além de outras coisas...!

E - A religião freia o desenvolvimento cognitivo?

RL - A religião marginaliza muitas vezes a mulher perante o homem, afastando-a do desenvolvimento cognitivo, mas algumas religiões estão tentando  corrigir essa posição.

E - Existem diferencias entre os cérebros do homem e da mulher?

RL - Só nas funções cerebrais relacionadas com as emoções, vinculadas  ao sistema endócrino.  Mas  quanto às funções cognitivas, não tem diferença alguma.

E - Por que ainda existem poucas cientistas?

RL - Não é assim!  Muitos descobrimentos científicos atribuídos a homens, realmente foram feitos por suas irmãs, esposas e filhas.

E - É verdade?

RL - A inteligência feminina não era admitida e era deixada na sombra.  Hoje, felizmente, tem mais mulheres que homens na investigação cientifica: as herdeiras de Hipatia!

E - A sábia Alexandrina do século IV...

RL - Já não vamos acabar assassinadas nas ruas pelos monges cristãos misóginos, como ela.  Claro, o mundo tem melhorado algo...

E - Ninguém tem tentado assassinar a você...

RL - Durante o fascismo, Mussolini quis imitar o Hitler na perseguição dos judeus..., e tive que me ocultar por um tempo.  Mas não deixei de investigar:  tinha meu laboratório em meu quarto...E descobri a apoptose, que é a morte programada das células!

E - Por que tem uma alta porcentagem de judeus entre cientistas  e intelectuais?

RL - A exclusão estimula entre os judeus os trabalhos intelectivos e intelectuais:  podem proibir tudo, mas não que pensem!  E é verdade que tem muitos judeus entre os prêmios Nobel...

E - Como você explica a loucura nazista?

RL - Hitler e Mussolini souberam como falar ao povo, onde sempre prevalece o cérebro emocional por cima do neocortical, o intelectual.  Conduziram emoções, não razões!

E - Isto está acontecendo  agora?

RL - Porque você acha que em muitas escolas nos Estados Unidos é ensinado o creacionismo e não o evolucionismo?

E - A ideologia é emoção, é sem razão?

RL - A razão é filha da imperfeição.  Nos invertebrados tudo está programado: são perfeitos.  Nós não.  E, ao sermos imperfeitos, temos recorrido à razão, aos valores éticos:  discernir entre o bem e o mal é o mais alto grau da evolução darwiniana!

E - Você nunca se casou ou teve filhos?

RL - Não.  Entrei no campo do sistema nervoso e fiquei tão fascinada pela sua beleza que  decidi dedicar todo meu tempo, minha vida!

E - Lograremos um dia curar o Alzheimer, o Parkinson, a demência senil?

RL - Curar...  O que vamos lograr será frear, atrasar, minimizar todas essas enfermidades.

E - Qual é hoje seu grande sonho?

RL - Que um dia logremos utilizar ao máximo a capacidade cognitiva de nossos cérebros.

E - Quando deixou de sentir-se feia?

RL - Ainda estou consciente de minhas limitações!

E - Que tem sido o melhor da sua vida?

RL - Ajudar aos demais.

E - O que você faria hoje se tivesse 20 anos?

RL - Mas  eu estou fazendo!!!!